
Uma investigação de 15 meses conduzida pela Polícia Civil da Paraíba e pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) revelou um dos episódios mais graves de corrupção na segurança pública do estado. Na última terça-feira (2), a Operação Perfídus resultou na prisão de um delegado e dois investigadores, acusados de liderar uma organização criminosa que desviava entorpecentes apreendidos para revendê-los a facções criminosas.
A apuração, que ganhou repercussão nacional após reportagem exclusiva do Fantástico, aponta que os policiais tratavam o comércio ilegal como uma "atividade empresarial". Estima-se que o esquema tenha movimentado cerca de R$ 10 milhões ao longo de quatro anos.
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A lógica do "Bomba": o crime como negócio
O pivô do esquema seria o investigador Everton Aires, conhecido como "Bomba". Com mais de 20 anos de corporação, ele ostentava uma imagem pública de palestrante e defensor da ordem, mas, nos bastidores, negociava cocaína, crack, skunk e até anabolizantes.
Em gravações interceptadas com autorização judicial, o investigador não demonstrava receio ao justificar suas ações: "É jogo, meu filho, é jogo. Isso é negócio, isso não é pessoal, é negócio", afirmou em um dos áudios. Em outra conversa, ele compara a venda de drogas a um comércio comum, alegando que o salário de policial — cerca de R$ 8,5 mil — era insuficiente para seu padrão de vida. Análises financeiras revelaram que ele movimentou mais de R$ 4 milhões em suas contas nos últimos cinco anos.
O papel da cúpula do esquema
Além de "Bomba", a investigação identificou a participação direta de:
Braz Morroni: Delegado da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT). Segundo o Ministério Público, ele não apenas tolerava as ações dos subordinados, como era beneficiário direto dos lucros, cobrava rapidez nas negociações a prazo e utilizava sua posição hierárquica para proteger o grupo.
Eduardo Jorge ("Mão Branca"): Investigador que participava da subtração física das drogas, monitorava carregamentos de facções rivais e armazenava entorpecentes em sua própria residência.
Modus Operandi e "Blindagem"
Segundo o delegado Rafael Bianchi, o esquema funcionava através de um ciclo vicioso: traficantes informavam aos policiais a localização de depósitos de grupos rivais. A Polícia Civil realizava a "apreensão", mas o material não era totalmente encaminhado para incineração. Parte da droga voltava para o mercado criminoso, abastecendo facções como o Comando Vermelho.
O procurador-geral da Paraíba, Jean Nunes, destacou a gravidade da infiltração: "O fato de serem agentes do Estado dá àquelas pessoas um poder de quem está ali, ciente, acreditando realmente que está blindado".
Prisões e Defesas
A operação cumpriu nove mandados de prisão e 24 de busca e apreensão. Além dos policiais, foram presos integrantes de facções criminosas, como José Alexandrino Júnior Lira, o "Júnior Lira", apontado como chefe de distribuição de carregamentos, e sua esposa, Vanessa Dantas, que atuava como "tesoureira" do esquema.
As defesas dos envolvidos negam as acusações:
A defesa de Braz Morroni ressalta a presunção de inocência e afirma que provará sua inocência no momento oportuno.
O advogado de "Mão Branca" nega que policiais negociariam drogas abertamente e sugere um possível "assassinato de reputação".
A defesa de Everton Aires ("Bomba") sustenta que o devido processo legal deve ser seguido.
Os três policiais civis permanecem presos no Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa. O caso segue em tramitação para apurar a extensão total da rede criminosa e possíveis novos envolvidos.
Fonte: Fantástico
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